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Estudo feito no Paraná é o primeiro a indicar recuperação da memória de pacientes com Alzheimer após tratamento com cannabis medicinal
Pesquisadores da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila) concluíram que os pacientes que receberam extrato com THC e CBD não só tiveram redução dos sintomas, como tiveram resultados melhores em testes de memória.
Por G1 Paraná | Postado em: 29/01/2026 - 09:19

Um estudo liderado por pesquisadores da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), em Foz do Iguaçu, no oeste do Paraná, indicou que a cannabis medicinal pode ajudar no tratamento do Alzheimer em pessoas idosas.

A pesquisa foi realizada com 28 voluntários com idades entre 60 e 80 anos e durou cerca de seis meses. Os resultados apontaram que a aplicação do extrato com 0,350 mg de tetraidrocanabinol (THC) e 0,245 mg de canabidiol (CBD) — dois compostos químicos presentes na cannabis — trouxe resultados significativos no tratamento de sintomas da degeneração causada pela doença.

Segundo os cientistas envolvidos, os pacientes que receberam o tratamento com as substâncias não só tiveram redução nos sintomas, como também apresentaram um avanço mais lento da doença e melhores resultados em um teste de memória, quando comparados aos pacientes que não receberam o tratamento. Os pesquisadores acreditam que isso pode indicar uma restauração de parte das células prejudicadas.

De acordo com os cientistas, esse é o primeiro ensaio clínico do mundo a comprovar que os compostos químicos da planta são eficazes para melhorar a memória em pacientes com a doença. Isso foi possível por meio de um teste de memória feito tanto pelos pacientes que receberam o tratamento, quanto pelos que receberam o placebo.

"Como universidade e como academia, nosso objetivo principal e função é buscar e gerar conhecimento para a sociedade. Nós estamos demonstrando que a cannabis tem potencial e pode tratar o Alzheimer", afirma o professor Francisney do Nascimento, que coordenou o estudo e lidera o Laboratório de Cannabis e Psicodélicos (LCP) da Unila.

Nair Kalb Benites, de 76 anos, foi uma das pacientes tratadas pelos pesquisadores da Unila. Segundo o filho, Nestor, de 54 anos, houve grande melhora. "Ela era agitada, nervosa, irritada. Qualquer coisa estava brigando, gritando. Hoje não, ela é bem tranquila, sossegada", diz.

Nair foi diagnosticada com Alzheimer em meados de 2017. Até então, segundo o filho, ela era conhecida pelo feijão que fazia no restaurante da família em Foz do Iguaçu.

Hoje, com o avanço da doença, o filho divide a vida entre os cuidados com a mãe e o trabalho em uma marmitaria.

Os primeiros sintomas do Alzheimer em Nair, segundo ele, foram percebidos por mudanças sutis em atividades cotidianas.

 

"A gente foi percebendo que ela começava a salgar mais a comida, esquecia e botava o sal de novo. Detalhes pequenos. Ela começava a ter menos paciência, gritava mais", conta Nestor.

 

O Alzheimer é uma doença degenerativa que causa a morte progressiva dos neurônios — células do sistema nervoso que levam sinais que permitem ao corpo controlar funções como raciocínio, movimentos e sensações. Dados divulgados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em 2024 apontam que 1,2 milhão de pessoas vivem com a doença no Brasil.

A morte celular leva à perda gradual de memória, raciocínio e autonomia dos pacientes. "É uma doença progressiva, tem uma piora cognitiva, comportamental, do sono. Não é só a perda da memória", explica o médico neurologista Elton Gomes da Silva, professor da Unila e responsável técnico pelo estudo.

De acordo com o Ministério da Saúde, o mal de Alzheimer representa até 70% dos casos de demência — grupo de sintomas que afetam o sistema cognitivo. A organização Alzheimer's Disease International (ADI) aponta que, até 2030, a demência vai afetar cerca de 78 milhões de pessoas em todo o mundo.

A doença não afeta só os pacientes, mas também a rede de cuidado ao redor dele.

Após a progressão da doença da mãe, Nestor viu a rotina dos dois mudar completamente. Por muito tempo, ele assumiu sozinho os cuidados da mãe, como banho, remédio, alimentação e sono. Hoje, ele conta com a ajuda de uma cuidadora profissional. Para o filho, o maior desafio é psicológico.

 

"Quando você cuida de um doente, você passa a ser paciente também. Você fica vulnerável, porque está fazendo o seu máximo e não consegue mudar a situação dela", desabafa.

 

Com a contratação da cuidadora, ele consegue usar parte do tempo para trabalhar na marmitaria, onde faz entregas. Foi durante uma dessas entregas, na Unila, que Nestor conheceu o estudo com os canabinóides [compostos químicos da cannabis] e decidiu inscrever mãe como voluntária no projeto de pesquisa.

Depois do início do tratamento, Nair ficou mais tranquila, menos agitada, mais paciente, dorme melhor e colabora com a rotina. Atualmente, o extrato usado para o tratamento dela é garantido pela universidade.

"Eu só sinto muito de a gente não ter conseguido isso antes. Eu acredito que, se a gente tivesse feito com mais antecedência, hoje ela não estaria nessa situação", afirma.
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