Um estudo liderado por pesquisadores da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), em Foz do Iguaçu, no oeste do Paraná, indicou que a cannabis medicinal pode ajudar no tratamento do Alzheimer em pessoas idosas.
A pesquisa foi realizada com 28 voluntários com idades entre 60 e 80 anos e durou cerca de seis meses. Os resultados apontaram que a aplicação do extrato com 0,350 mg de tetraidrocanabinol (THC) e 0,245 mg de canabidiol (CBD) — dois compostos químicos presentes na cannabis — trouxe resultados significativos no tratamento de sintomas da degeneração causada pela doença.
Segundo os cientistas envolvidos, os pacientes que receberam o tratamento com as substâncias não só tiveram redução nos sintomas, como também apresentaram um avanço mais lento da doença e melhores resultados em um teste de memória, quando comparados aos pacientes que não receberam o tratamento. Os pesquisadores acreditam que isso pode indicar uma restauração de parte das células prejudicadas.
De acordo com os cientistas, esse é o primeiro ensaio clínico do mundo a comprovar que os compostos químicos da planta são eficazes para melhorar a memória em pacientes com a doença. Isso foi possível por meio de um teste de memória feito tanto pelos pacientes que receberam o tratamento, quanto pelos que receberam o placebo.
"Como universidade e como academia, nosso objetivo principal e função é buscar e gerar conhecimento para a sociedade. Nós estamos demonstrando que a cannabis tem potencial e pode tratar o Alzheimer", afirma o professor Francisney do Nascimento, que coordenou o estudo e lidera o Laboratório de Cannabis e Psicodélicos (LCP) da Unila.
Nair Kalb Benites, de 76 anos, foi uma das pacientes tratadas pelos pesquisadores da Unila. Segundo o filho, Nestor, de 54 anos, houve grande melhora. "Ela era agitada, nervosa, irritada. Qualquer coisa estava brigando, gritando. Hoje não, ela é bem tranquila, sossegada", diz.
Nair foi diagnosticada com Alzheimer em meados de 2017. Até então, segundo o filho, ela era conhecida pelo feijão que fazia no restaurante da família em Foz do Iguaçu.
Hoje, com o avanço da doença, o filho divide a vida entre os cuidados com a mãe e o trabalho em uma marmitaria.
Os primeiros sintomas do Alzheimer em Nair, segundo ele, foram percebidos por mudanças sutis em atividades cotidianas.
"A gente foi percebendo que ela começava a salgar mais a comida, esquecia e botava o sal de novo. Detalhes pequenos. Ela começava a ter menos paciência, gritava mais", conta Nestor.
O Alzheimer é uma doença degenerativa que causa a morte progressiva dos neurônios — células do sistema nervoso que levam sinais que permitem ao corpo controlar funções como raciocínio, movimentos e sensações. Dados divulgados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em 2024 apontam que 1,2 milhão de pessoas vivem com a doença no Brasil.
A morte celular leva à perda gradual de memória, raciocínio e autonomia dos pacientes. "É uma doença progressiva, tem uma piora cognitiva, comportamental, do sono. Não é só a perda da memória", explica o médico neurologista Elton Gomes da Silva, professor da Unila e responsável técnico pelo estudo.